segunda-feira, 2 de junho de 2008

O Papel é Mais Paciente que o Homem - Parte II

Para entender melhor a história, confira a postagem anterior, parte I.

- Seu Gomes? – disse Afonso, espantado.

- Como vai seu Gomes? – disfarçou Marcelo, enquanto pegava a carta e a jogava no colo.

- Porque o susto? – perguntou o velho, com sua voz rouca e rasgada. – Aconteceu alguma coisa?

- Não senhor. Estávamos apenas conversando sobre alguns assuntos da empresa. – respondeu Marcelo.

- Hum... sei. Com tanta coisa pra se resolver os dois pombinhos ficam de conversa pelos cantos? Eu não sou contra homossexualismo, mas aqui na empresa não se tolera relações mais intimas entre funcionários...

Silêncio. E de repente, o velhote soltou uma gargalhada. Não parecia, mas para ele, havia feito uma piada. Uma piada que Afonso e Marcelo não acharam a menor graça.

- O senhor queria nos falar alguma coisa? – perguntou Marcelo, mudando logo o rumo da conversa.

- Óbvio. – disse ele enquanto ajeitava a calça. – Achou que eu viria me ajuntar a conversa de vocês? Eu tenho mais o que fazer. Quero os dois mais tarde na minha sala para uma reunião com os funcionários do nosso setor. Será daqui á duas horas. Não ando gostando de certas posturas na nossa equipe, e já vou avisando: cabeças irão rolar.

Os dois rapazes sentiram um frio a percorrer a pele.

- Tudo bem. Estaremos lá. – respondeu Afonso.

O homem apenas emitiu um som incompreensível, e em seguida saiu da sala, ajeitando a gravata.

- Cara, eu ainda mato esse velho... – disse Afonso, agora engasgado. – Isso é piada que se faça?

- Pra você ver. To até suando. Vamos tomar uma água?

- Demorou. Nem quero imaginar como vai ser essa reunião... Cabeças vão rolar... cabeças vão rolar...

E saíram rapidamente da sala, rumo ao bebedouro mais próximo, que ficava no corredor a duas portas depois da deles. A frase de seu Gomes fora forte, e ficara por vários minutos se repetindo dentro de suas mentes, como um LP riscado.

- “Cabeças irão rolar”... “cabeças irão rolar”... “cabeças irão rolar...”


***

E após um bom copo d’água, dos dois voltaram a sala, se jogando em suas cadeiras.

- A Mari falou que ele tá planejando essa reunião há dias. Tudo porque o gerente geral reclamou dos nossos resultados.

- Engraçado né Afonso. Todo aquele meu projeto fala justamente sobre isso, sobre como melhorar os resultados da nossa equipe. Apresentar isso cairia como uma luva nessa reunião. Mas duvido que ele me deixe falar. É só ele quem fala nas reuniões.

- Pois é... Nossa, até agora to engasgado com aquela piada que ele fez. Eu devia fazer como você também. Vou escrever uma daquelas cartas pra aquele tangerina podre...

Foi então que Marcelo teve um estalo. No momento de tensão pela presença de seu Gomes e pela reunião, esquecera-se do bilhete, que até então onde lembrava, havia deixado em seu colo. Olhou para a papelada na mesa. Em seguida, olhou para o chão. O papel não estava lá. Colocou a mão nos bolsos de sua calça. Também não estava lá.

- O que foi? – perguntou Afonso, enquanto mexia o mouse do seu micro para sair da proteção de tela.

- Não acho aquele papel que eu escrevi. Tinha deixado ele no colo na hora que o seu Gomes entrou.

- Iiihhh... deixa eu ver.

E fuçaram por toda a sala, nas mesas de funcionários de outros turnos, no carpete, nas gavetas, e até nas lixeiras.

- Eu não acredito que você perdeu isso, Marcelo. Vamos lá no corredor, vai que você deixou cair por lá.

E foram no corredor até no bebedouro onde haviam parado. Algumas pessoas que passavam por ali estranhavam a atitudes daqueles dois rapazes andando de quatro naquele carpete cinza.

- O que estão procurando. – perguntou Miriam, colega de trabalho.

- Eh...

Falariam do tal desabafo ao chefe?

- É um papel que a gente perdeu...

- Por acaso seria esse aqui? Achei na porta da sala de vocês.

E no desespero, Marcelo arrancou o papel da mão da mulher.

- Nossa calma! – indignou-se ela. – Eu já ia te entregar.

E Marcelo abriu o papel. Murchou. Não era ele.

- Desculpa, é que eu preciso muito desse papel que eu perdi. O meu emprego pode estar em jogo se ele parar em mãos erradas.

- Sei. E como ele é?

- Era na verdade um rascunho. Atrás tem o símbolo da companhia.

- Ah... quase todos os papeis daqui tem a marca da companhia. Desse jeito fica difícil né... Mas tudo bem. Se eu achar alguma coisa por ai, eu falo com vocês. Com licença, preciso me arrumar pra reunião com seu Gomes.

E a moça saiu, deixando os dois no chão.

- Cara, agora eu to com medo. - comentou Marcelo. - Onde foi para esse papel?

- Onde foi eu não sei cara, mas acho melhor a gente correr porque a reunião começa daqui a duas horas. Imagina se alguém encontra esse papel ou o próprio seu Gomes o encontra por ai?

- Vira essa boca pra lá. Eu já sei o que a gente vai fazer. Vamos perguntar em todos os departamentos.

- Mas peraí, você não vai falar o que tinha naquele bilhete não é?

- Vou sim. Não tem outro jeito. Até porque, esse bilhete ia fazer um puta sucesso entre o pessoal. Ia ser muito divertido.

- Pior que ia mesmo...hehehehe... Bom, se esse é o preço que a gente tem que pagar pra achar esse bilhete, tudo bem, a gente paga. Vamos lá.

Marcelo abriu um sorriso. Mesmo com toda aquela situação, ele iria adorar mostrar esse bilhete para todos os membros da equipe. Vai ser um sucesso...


continua...


FOTO: http://timshel-driesvanba.blogspot.com/2007/12/psicose-65.html

domingo, 1 de junho de 2008

O Papel é Mais Paciente que o Homem - Parte I


Nesta semana o "Em Linhas..." completará 1 ano de vida. E para comemorar esta data tão especial, publicarei um conto com quatro partes que serão postadas de hoje até o dia 4, que mostra o que um simples desabafo no papel pode provocar na vida de uma pessoa, especialmente quando esse belo desabafo envolve o seu “querido” patrão...

Divirta-se, e acompanhe essa seqüência que promete...


Abriu a porta com fúria, fechando-a em seguida. Sentou em sua mesa, espumando de raiva.

Afonso viu o amigo Marcelo visivelmente nervoso. Não precisou pensar muito. Foi mais um daqueles dias em que levara esporro do seu patrão, Seu Gomes.

Seu Gomes era um senhor de idade. Beirava os sessenta anos, mas a sua expressão enrugada e com pesadas olheiras lhe adicionavam mais dez anos de idade. Era gordo, usava habitualmente terno e gravata, mas com a sua pressa e a sua ansiedade sempre à flor da pele, suas calças nunca paravam no lugar, e a sua gravata vivia torta e mal colocada. Por isso, já era hábito vê-lo ajeitando as calças e/ou a gravata de dois em dois minutos. Já era administrador daquele setor há cerca de cinco anos, mas seu tempo de empresa já ultrapassava os vinte. Sentia-se o máximo em seu cargo, ainda mais quando o gerente geral exaltava as suas qualidades ou as qualidades do departamento.

- Aquele imbecil não vale nada. Você acredita que ele simplesmente se recusou a ouvir o projeto que eu fiz, dizendo que quem era pago para pensar era ele e eu era só pago para obedecer?

- Imagino. O seu Gomes é casca dura, acha que só ele é que deve pensar. Mas relaxa, cara, não fica assim não...

Era o que ele sempre dizia ao amigo nessas horas. Por mais que detestasse aquele emprego e principalmente o patrão, Marcelo tinha muita vontade de trabalhar, e era uma mente criativa dentre todos que trabalhavam naquele setor.

- Aquilo ali é inveja. – dizia ele. – Ele tem medo de eu roubar o cargo dele. Essa é que é a verdade. Ele sabe que eu tenho mais competência que ele. Se você soubesse como eu fiquei na hora que ele falou aquilo... Deu vontade de falar tudo aquilo que tá engasgado na minha garganta, puta que pariu...

- Não fica assim não rapaz, faz que nem eu, em vez de ficar por ai batendo porta, xingando o chefe e com coisa engasgada só zoando com a sua saúde, porque você não pega um papel e começa a descarregar tudo que você queria falar pra ele?

- Descarregar? No papel? Em linhas?

- Sim. É melhor do que ficar espumando aí como você tá... Às vezes eu faço isso também. Foi um psicólogo que me recomendou quando eu tive aquela crise de stress. Não conhece aquele ditado que diz que o papel é mais paciente que o homem?

- Sei...

- Então. Faça isso, cara. Você vai ver como vai se sentir melhor...

Marcelo franziu a testa. Nunca tinha pensado nisso. Soava até meio que infantil para ele. Ele já tinha feito isso algumas vezes quando era adolescente, naquela fase em que os nossos conflitos viram linhas, em versos, diários ou em frases pequenas de caderno de escola. Mas já fazia muito tempo que ele não desabafava dessa forma.

- Não é uma má idéia...

***
- Pronto. Terminei.

- Posso ler?

- Pode mas lê só com os olhos.

- Beleza.

E então, Afonso começou a ler o papel.

“Querido senhor Gomes,

Venho através desta lhe confessar o quanto admiro o seu trabalho e especialmente, o quanto a empresa conseguiu ser tão burra o suficiente para pagar um salário generoso a um velho que mal sabe arrumar as próprias calças. Obvio, quem sou eu pra discordar da gestão da nossa querida empresa, mesmo que ela tenha tomado a atitude de contratar cavalos no lugar de seres humanos para setores onde seus funcionários parecem ter mais inteligência do que o seu próprio administrador. Mas tudo bem senhor Gomes, o aquecimento global está acabando com o nosso planeta, e entendo que animais selvagens como o senhor precisem de uma ajuda para sobreviver, por isso, fique tranqüilo, eu não quero roubar o seu cargo ou a sua mulher, se bem que pelo seu jeito, duvido que você ainda lembre o que é ter uma mulher, com essa cara de tangerina podre que você tem.

Pois bem senhor Gomes, diante disso tudo, apenas peço que preste mais atenção nos projetos que eu for lhe apresentar, porque não os faço para agradar o senhor, e sim porque além de querer o bem estar do nosso setor, eu não perco o meu tempo mostrando quem é que manda por aqui.”

Um abraço carinhoso de seu funcionário pago para obedecer,

Marcelo


- Nossa cara, tangerina podre foi o pior!!!! – exclamou Afonso rindo.

- Psst! Fala baixo, quer que ele escute?

- Foi mal... mas meu, você escreveu isso como se realmente fosse algo direto pra ele. Ficou ótimo. Até eu me senti vingado! Mas e aí, você se sente melhor?

- Se eu me sinto? Nossa, acho que vou fazer isso todos os dias. Vou pegar... fazer essa carta... dobrá-la e guardá-la todos os dias só pra me divertir um pouco quando quiser rir da cara dele.

- Espera aí, você vai jogar fora né? Ou pelo menos não vai deixar isso guardado por aqui?

- Porque você tá falando isso? Você acha que alguém vai ler isso aqui ou que vai chegar aos ouvidos do chefe?

- Não sei mas se eu fosse você não arriscava.

- Relaxa. Todo mundo aqui odeia ele, fora que essa carta vai ficar bem guardada. Mas jogar fora eu não jogo nem em sonho. Foi a minha maior obra prima dentro dessa empresa.

- Tá bom, você é quem sabe, mas cuidado. Você mesmo me falou outro dia que tá endividado até o pescoço e não pode nem sonhar em perder esse emprego.

- Nem me fale. Mas pode ficar tranqüilo, ela está em boas mãos.

E de repente, para a surpresa dos dois. Seu Gomes entrou na sala, sem bater como de costume. Seus olhos carrancudos pareciam a todo momento uma arma mirada para quem ele olhava, pronta para disparar o primeiro tiro.

continua...


FOTO: http://franklincarlos.files.wordpress.com/2008/03/raiva.jpg

domingo, 25 de maio de 2008

A Nossa Second Life

Era um dia como outro qualquer.

Peguei a minha mochila e saí de casa para ir trabalhar. A empresa que eu trabalho fica perto da minha casa, coincidentemente no prédio onde era a minha antiga escola. O tempo estava meio nublado, e eu também parecia ter nuvens na cabeça. Não sabia porque mas me sentia tão avoado naquele dia...

Chegando lá, como de costume, cumprimentei os meus colegas, uns com um beijo no rosto, outros com um tapa na cabeça, outros apenas de longe, outros com toque de malandro da periferia, outros com um sorriso, e em seguida sentei na minha cadeira para iniciar mais um dia de trabalho.

Liguei o meu micro, quando de repente me bateu algo na cabeça. Olhei para os lados. Havia algo muito estranho naquele ar já poluído de inveja e outros sentimentos negativos.

Mas dessa vez, parecia que a coisa era comigo. Todos me olhavam sérios e com cara de que eu havia feito alguma coisa. Achei estranho, porque tinha certeza de que não havia feito nada de diferente e nem fora das normas da empresa.

E então, constrangido pelos olhares, cheguei até a uma amiga com quem tinha mais intimidade, e perguntei à ela se havia acontecido alguma coisa e porque todos estavam me olhando daquele jeito. Ela não respondeu, e também ficou me olhando com a mesma cara espantada.

Foi então que olhei para o display do aplicativo no micro de uma colega, e lá estava escrito “segunda-feira, 14 de abril de 2008”.

Foi aí que me dei conta do que havia acabado de fazer.

Na hora, as minhas pernas ficaram bambas, e após olhar aquela data eu simplesmente não sabia onde enfiar a cara.

Tinha me lembrado, simplesmente, que estava de férias, e desde o dia 1º de abril.

Sai de lá rasgando e escondendo o rosto para que ninguém mais me visse, principalmente o meu supervisor, e furioso porque saí de casa e minha mãe que estava lá não tinha sequer me lembrado.

E fiquei com aquilo na cabeça, assustado, afinal, há tanto tempo que esperava essas férias e de repente, acontece isso.

E de repente, me vejo assustado, ofegante e ainda com aquele cenário na cabeça.

Havia acabado de acordar. Havia tido, simplesmente, um sonho.

Sonho é uma coisa curiosa. Me lembro ouvindo historias quando era menor, que quando a gente sonhava, significava que nosso espírito saia da gente e ficava vagando por ai e depois voltava ao nosso corpo. Ou então quando a gente uma coisa é porque na vida real vai acontecer o contrário.

Já sonhei com situações bem malucas, e com pessoas que conheço na vida real mas que não se conhecem entre elas. Ou então com personagens de filmes, novelas e seriados que marcaram a minha infância, adolescência, ou que assisto até hoje. E engraçado que, dependendo do sonho e do local que sonhei, acordo com ele na cabeça, como se eu ainda estivesse por lá. Parece que a gente está em transe...

E quando se tem aqueles sonhos eróticos, algo como aquela cara ou aquela gata que você está a fim faz tempo, e ela está bem ali, pronto(a) para você... vocês começam a se beijar, o clima vai esquentando... e de repente... PUF, você acorda bem na hora H. Bate aquele desespero, e você volta a fechar os olhos na tentativa de resgatar aquele sonho. Mas não adianta, ele não volta. E você fica ali na cama, chupando o dedo...

Há também aqueles sonhos estranhos que nós temos, geralmente com alguma situação diferente, e de repente ela acontece. São os sonhos premonitórios, que muita gente acredita e existem livros especializados em deduzir cada detalhe do sonho, seja para esclarecer algo que esteja atormentando as noites de sonho de alguém, seja para matar a curiosidade do leitor, ou seja simplesmente para jogar no bicho.

No caso do sonho que contei, o curioso é que na época estava mesmo de férias, porem o meu trabalho na verdade fica a mais de uma hora daqui de casa, isso de ônibus. Mas a origem dela foi um simples comentário no dia anterior que estava ainda estranhando essa rotina de não precisar de arrumar para sair e pegar esse transito caótico de São Paulo.

Sendo conclusivo, para mim o sonho é de certa forma a nossa “Second Life”, mas sem regras, cada dia com uma história diferente, cada momento com personagens e atitudes diferentes, mas o bacana é poder sair um pouco do nosso mundo e embarcar nessa fantástica sensação de estar vivendo uma outra realidade, muitas vezes algo que no fundo desejamos, mas por algum motivo externo está distante.

E tudo isso sem tecnologia, sem efeitos especiais e nem computadores inteligentes.

É apenas um trabalho cotidiano da nossa cabeça, e de graça.


FOTO: http://www.theage.com.au/ffximage/babelswarm_wideweb__470x313,2.jpg

domingo, 18 de maio de 2008

O Acervo de Daniela

Era um daqueles dias chuvosos, onde nosso próprio corpo responde pouco aos nossos movimentos. A cama se torna um pólo de gravidade que parece a todo momento nos sugar de volta para ela, onde segundo a sua própria opinião, não deveríamos nunca ter saído.

Daniela se sentia assim. Era domingo e por isso, resolvera ficar até mais tarde na cama, ainda mais depois que viu aqueles pingos na janela. Virou o rosto para o outro lado, fitou uma das portas do seu guarda-roupa cheio de adesivos. Ficou com os olhos parados por um tempo, não se sabe ao certo. Em seguida olhou no relógio: já passava do meio dia.

Levantou-se e ficou sentada na cama, ainda com os olhos naquela porta. Fazia tempo que ela não reparava nela. Como estava envelhecida, pensou ela. Aquele guarda-roupa de madeira marfim fora comprado há quase dez anos pelo seu pai. Naquele tempo ele ainda era casado com a sua mãe, e resolveu de um dia para o outro arrastar a filha para uma loja de móveis e mandou que ela escolhesse um lindo guarda-roupa para o seu quarto. E ela escolheu aquele. O tempo foi passando, e ela ganhou um lindo adesivo da Pakalolo, dado por uma amiga da 2º série. Foi o primeiro colado naquela porta, o primeiro dos vários que vieram a enfeitá-la.

E Daniela ficou de pé, dirigindo-se diretamente para aquela porta. Resolveu que, naquela manhã chuvosa de domingo, ela novamente seria aberta.

Lá havia muito papéis, como cadernos da escola, bonecas, fotos, cartas, agendas e diários. Sentia-se um pequeno odor de mofo, mas a menina pareceu não se importar, e enfiou a mão dentro daqueles pertences empoeirados.

Puxou uma caixa de fotos. Todas elas eram de uma excursão da escola para um sítio em Atibaia, datadas de agosto de 1997. A professora Leandra, de geografia, é que comandou o passeio. Em várias das fotos, amigos se exibindo na piscina os seus “músculos” de garotos de doze/treze anos, e suas amigas, a Kátia, a quatro olho; a Mari, a Chiquitita; e a Fá, a Magda do Sai de Baixo. As quatro amigas eram inseparáveis. Uma chorava no ombro da outra, dava conselhos, arranjava os esquemas com os meninos, passava cola nas provas, por fim, eram as irmãs. Irmãs que o tempo foi separando. De todas, Daniela só tinha contato com a Kátia, que já era mãe, mas mesmo assim um contato distante, via Orkut. Pessoalmente já não se viam há mais de cinco anos. Como estariam as outras meninas? Como seria se as quatro um dia se reencontrassem? Seria a mesma amizade? Ao lado das fotos, Daniela encontrou também alguns recortes de revistas com os Backstreet Boys e até das Chiquititas, a novela que ela não perdia nunca. Uma das fotos onde estava a Mili já demonstravam sinais do tempo, com algumas manchas pretas de mofo. Carinhosamente, Daniela assoprou e limpou-a com a mão, e um sorriso no rosto como quem estava cuidando de uma criança.

Guardou a caixa e os recortes, e passou a fuçar nas agendas. Numa das agendas, da sétima série, várias figurinhas das balas Fregells com conselhos amorosos, fotos de atores considerados símbolos sexuais da época, entre vários pensamentos que ela mesma colhia no seu dia-a-dia de fazia questão de deixar registrado no papel. E mais para o final da agenda, várias assinaturas e mensagens de colegas da classe, professores, alguns até já falecidos, e marcas de batom de várias cores. Achara até perdido um autógrafo que recebera da Xuxa uma vez em que ela fora com suas amigas ao Xuxa Park.

Em seguida, lá em baixo, para a sua surpresa, achara um caderno de perguntas, desses que as meninas viviam circulando pela escola, principalmente para saber coisas picantes de outras meninas e dos caras mais bonitinhos da 8º série, e é claro, também dos C.D.Fs. Ela também havia respondido o caderno, na época, com catorze anos. Até a letra era diferente. E as respostas então? Sonho quando crescer: ser dançarina do É O Tchan! Isso porque hoje ela detesta axé. E o homem ideal: Leonardo DiCaprio. E ela lá sabia o que era homem? E Daniela começou a rir sozinha, ainda mais ao ler uma pergunta “O que você faria se o homem ou mulher dos seus sonhos aparecesse na sua frente?”, e um garoto respondeu que imitaria o Michael Jackson para impressioná-la.

Veio um filme em sua cabeça. Lembrou-se das pessoas, das situações até perigosas e irresponsáveis que já viveu, como às vezes em que cabulava as aulas para ir ao shopping e dar de cara com a mãe, as brigas, as traquinagens com as professoras e com os colegas, os paqueras, os amores... Amores?

Lembrou que faltava uma parte do acervo que ela não tinha visitado. Voltou à porta, tirou alguns cadernos e revistas, e de lá do fundo, surge uma caixa de madeira. Foi com ela para a cama.

Era uma caixa com várias cartas e até fotos de alguns meninos que fizeram parte vida dela. Alguns hoje já casados, outros que tomaram caminhos diferentes, outros que tomaram caminhos errados e até já morreram, e um de nome Allan.

Allan...

Foi um namoro de quase dois anos, o mais longo relacionamento que ela já havia tido. Era um rapaz tão bonito... de feições carismáticas que encantavam a qualquer ser humano. Isso explicava o porque de tantos amigos... e amigas. Daniela se apaixonara pelo rapaz e queria que ele fosse o pai de seus filhos. Foi um lindo namoro que começou em uma das festas da escola, onde havia se conhecido. Uma semana depois, com os olhos brilhando, os dois já anunciavam oficialmente o namoro. Daí por diante, seguiu-se uma história cheia de companheirismo, cumplicidade, noites excitantes e perigosas, e muito amor recíproco.

Pena que as histórias boas duram pouco. Certo dia a família de Allan mudou-se para Ribeirão Preto, e mesmo com muita resistência, o rapaz acabou indo com a família. Ainda se falaram pelo telefone por alguns meses, até que num certo dia, Daniela conseguiu juntar dinheiro e viajou para a cidade, mas chegando lá, descobriu que o rapaz já estava namorando outra menina, e pior, a menina já estava até grávida. Foi a gota d’água. E após soltar muitas lágrimas, Daniela resolveu seguir sua vida em frente e esquecer de toda aquela história. Desde então nunca mais o viu, e nem quis mais saber dele. O tempo passou, outros amores vieram e se foram, e essa história acabou sendo mais um monte de papel mofado em dentro do seu guarda-roupa.

E de repente, como se acabasse de sair de um transe, Daniela acordou. Olhou-se no espelho. Estava com os olhos marejados. Olhou novamente para a foto de Allan, chegou a posicioná-la para rasgar, mas não o fez. Jogou a foto de volta na caixa e a guardou no acervo. Em seguida fechou a porta do guarda-roupa.

Decidiu ir tomar um bom banho, porém, ao pegar o seu chinelo, percebeu um pedaço de papel no chão, ao abrir, sentiu seu coração disparar.

Era o telefone de Allan.

E do nada, batera uma curiosidade em saber como ele estava, o que havia feito de sua vida. Já fazia cerca de seis anos que ela não o via.

Resolveu ligar. O telefone chamou quatro vezes. Quando ela ia desligar, uma voz masculina atendeu.

- Alô?

Daniela ficou em silêncio.

- Alô? Alô?

Resolveu desligar o telefone. Mesmo tendo o amado tanto, já era passado para ela. Achou melhor não voltar a mexer nessa história. Ela já não precisava mais disso.

E então, sem pensar duas vezes, jogou o papel dentro do acervo, nem olhando onde ele havia caído. Que se perdesse no meio daquele monte de passado.

E com um sorriso no rosto, fechou de vez a porta do guarda roupa, satisfeita pelas recordações maravilhosas e da nostalgia que por algum tempo a fez se esquecer do mundo.

Mas, disso tudo, o que ela mais sentiu foi um orgulho, primeiro, de ter vivido e aprendido muito com tudo aquilo, e principalmente, de ter chegado até agora, com 23 anos de idade, auxiliar de escritório, estudante de Publicidade e Propaganda na USP, fã de rock progressivo e de MPB, mas que de vez em quando ainda se aventurava a dançar e a cantar os créus da vida.

Sempre com a humildade de quem está aqui para aprender.


FOTO: http://www.shade.cc/bios/cover_eyes.jpg