quinta-feira, 5 de junho de 2008

O Papel é Mais Paciente que o Homem - Parte IV - Final

Peço novamente desculpas por estar postando só hoje. Ontem pareceu ser o dia dos imprevistos... mas tá aqui, o último capítulo, tá meio longo, mas eu garanto que ao ler você nem vai perceber que terminou, ou mesmo que perceba, não vai se arrepender...

Sala de reunião. Normalmente, quando a equipe era convocada para essas reuniões com seu Gomes, sempre para lhes dar algum sermão, pairava naquela sala um clima de “O Aprendiz” da Tv Record, bem naquele momento em que os participantes aguardam a entrada de Roberto Justus. Mas lá não, o clima estava tão descontraído, mas tão descontraído, que a reunião parecia mais uma confraternização. O motivo?

- Nossa, tangerina podre... KKKKKK.

- Eu sinceramente não queria ver a cara do seu Gomes hoje... Não vou conseguir me segurar quando ver a cara dele e aquele mania de ajeitar as calças...KKKKK

Era só o assunto. Finalmente, alguém falara palavras “sábias” e verdadeiras sobre seu Gomes. Marcelo apenas observava aquela cena, todos comentando do papel, todos comentando dele, todos fazendo fofoca sobre o ato de Marcelo, e principalmente, onde estaria o tal papel, já que Dona Maria, a faxineira, espalhou o papel suspeito que entregara a seu Gomes e a sua reação após recebê-lo.

- Nossa... Nunca pensei que causaria tanto nessa empresa com esse papel... – sussurrou a Afonso. – Acho que falei demais. Já tão inventando coisas que eu não escrevi. O que eu fiz cara... Devia ter tomado mais cuidado com aquele papel... Eu nem sei o que vou fazer quando o seu Gomes esfregar ele na minha cara aqui, na frente de todo mundo...

- Relaxa. Qualquer coisa a gente inventa que foi intriga de alguém, sei lá. Mas não fica assim não, a gente ainda não tem certeza se é mesmo o seu papel o não. Apesar que tudo indica que sim, né...

- Obrigado pelo ânimo...

E de repente, a maçaneta da porta foi brutalmente mexida. Silêncio. Por fim, ajeitando as calças, eis que surge seu Gomes, com a sua cara visivelmente cheia de olheiras, e também visivelmente furioso, com jeito de quem estava prestes e despejar coisas que estavam entaladas na sua garganta.

E com um sorriso irônico, soltou:

- Boa tarde.

- Boa tarde. – todos responderam, apreensivos.

- Muito bem... Acho que já perco demais o meu tempo falando com vocês, por isso, irei ser o mais sutil possível sobre o que vim tratar nessa reunião. Na verdade, de inicio, era sobre um assunto só, mas nessa tarde ocorreu um certo fato muito infeliz que acabou entrando na pauta, portanto, senhoras e senhores, iremos tratar sobre dois assuntos importantes.

Marcelo sentiu um frio a percorrer o seu corpo.

- Ontem o gerente geral me chamou a atenção para o comportamento da nossa equipe, coisas fúteis como questão do lixo, conversas altas no corredor, assuntos inapropriados para o ambiente de trabalho e até mesmo problemas no visual como barba por fazer, vestimentas não adequadas ao que diz as normas da empresa, e outros fatos que me deixaram profundamente abalado. Afinal, vocês acham que estão aonde? Na casa de vocês? Num zoológico? É muita falta de postura e profissionalismo por parte de vocês! Há muito tempo já deveriam ter seguido o meu exemplo como profissional há quase vinte e cinco anos aqui dentro...

E ficou, por longos trinta e seis minutos discutindo sozinho sobre questões de postura dentro do ambiente de trabalho, fazendo comparações infelizes e citando nomes de funcionários na frente dos outros, deixando-os constrangidos. Com o tempo, aquele sermão foi dando sono a muitos que estavam ali, mesmo aos berros roucos que seu Gomes emitia, entre uma arrumada de calça e uma arrumada de gravata que ele vivia fazendo. E Marcelo permanência trêmulo, distante, apenas pensando no próximo assunto...

- E é isso senhoras e senhores “não-colaboradores”. Agora, vamos ao segundo assunto que vim tratar hoje. Estava eu em minha sala, me preparando para o que ia dizer referente a essa reunião, quando a faxineira na qual sempre me esqueço o nome vem a minha sala e me entrega este papel aqui...

E tirou o papel do bolso, exibindo as suas costas, a parte com o logotipo da empresa, para todos os presentes naquela mesa. Todos olharam para Marcelo, que ficava cada vez mais pálido, e em seguida voltaram a olhar para seu Gomes, disfarçando ao máximo os seus sorrisos.

- Nunca pensei em vinte e cinco anos de empresa que viveria uma situação tão constrangedora como essa! Um absurdo! Uma vergonha! Uma...- e mordeu os lábios, resolvendo não dizer. – Alguém tem algo a dizer sobre isso?

Silêncio absoluto. Afonso, como bom amigo, deu discretos tapas nas costas de Marcelo, que á esta altura, já sentia o seu corpo todo tremendo.

- Ninguém? Então tá... já que ninguém se manifestou, então vou escolher a pessoa certa para falar sobre esse assunto, não é mesmo, senhor MARCELO?

Susto. Olhares sobre o dito cujo. Marcelo olhou para seu Gomes, que com seu olho que mais parecia uma arma mirando sobre ele, continuou:

- O que o senhor tem a me dizer sobre isso aqui?

Já era tarde. Pelo jeito, era mesmo o paepel. Não tinha mais como fugir. Falaria a verdade, ou inventaria a famosa desculpa, “armaram isso tudo pra mim”? Não, não ia colar. Seu Gomes pouco liga para os seus funcionários. Ele será mandado embora do mesmo jeito. O melhor era falar a verdade.

- Me desculpe seu Gomes, não foi a minha intenção denegrir a sua imagem. Na verdade estava chateado porque horas antes lhe apresentei um projeto de melhoria para o nosso setor e o senhor simplesmente se recusou a me ouvir, ainda dizendo que eu só era pago pra obedecer...

- Sei...

- E sinceramente, não acho justo dar esse tratamento a um funcionário que apenas quer dar o melhor de si, e o senhor pode ter certeza, essa sua postura arrogante colabora e muito para todas essas criticas negativas que o senhor mesmo acabou de citar aqui na reunião. Tome as providencias que o senhor preferir em relação a mim, mas eu não me arrependo de ter escrito esse papel desacatando o senhor. Foi apenas uma maneira que encontrei de descarregar aquilo tudo que estava entalado na minha garganta referente ao seu modo arrogante e repressor com quem tem tratado a mim e a todos presentes aqui na sala. O senhor pode ter o tempo que for aqui dentro, mas uma coisa, que, sendo sincero, o senhor ainda não aprendeu é que funcionário não deve só ser pago para obedecer, e sim para colaborar com a equipe dando o melhor de si. É isso.

Silêncio. Olhares assustados e fixados nos dois. Seu Gomes também estava mudo, sem reação, com os olhos ainda fitados em Marcelo. Balançou a cabeça, suspirou, e por fim, deu o seu veredicto:

- Você está certo, senhor Marcelo, não tiro a sua razão. Pode ter certeza que farei o possível para tratar a todos conforme a sugestão do senhor, desde que também façam a sua parte. Agora, vou lhe confessar uma coisa, estou chocado com esse papel que você me escreveu. Muito chocado! Onde ele está?

- Onde ele está? Ora, na sua mão.

- Isso aqui é apenas um relatório do desempenho da equipe. Aliás, era disso que eu ia falar. Não tinha visto ainda esse papel, e confesso que fiquei estarrecido com a nossa decadência em seis meses. Era isso que eu ia mostrar. Mas agora eu quero saber, onde está esse papel?

- Então... ele não estava com o senhor?

- Se estivesse acha que eu estaria perguntando?

Marcelo olhou para Afonso. Agora caíra a ficha. Além do papel não estar com seu Gomes, ele também não sabia de nada... até ali.

- Eh... o que o senhor ia falar mesmo sobre o relatório?

***
- Nossa, meu ouvido tá doendo até agora, cara. – disse Marcelo, enquanto arrumava as suas coisas em sua sala.

- Eu imagino. Pow cara, não sei nem o que dizer. Por causa de um papel aconteceu isso tudo. Ainda bem que ele não te mandou por justa causa, não é?
- Pois é, ele sabe que eu to certo, e ele percebeu o quanto a equipe anda insatisfeita com a gestão dele. Chega uma hora que até gente casca grossa feito ele percebe as coisas como são à sua volta. Mas eu não me arrependo de ter escrito aquele papel, não. Agora me sinto muito melhor, primeiro por ter descarregado tudo aquilo, e segundo, por ter falado na cara do seu Gomes o que ele precisava ouvir.

Era a hora da despedida, antes de passar pela última porta que um empregado demitido sempre passa, a do departamento pessoal.

- Valeu mesmo Afonso, obrigado por tudo.

- Que é isso. Amigos são pra essas coisas. E vê se não fura naquela pelada que a gente marcou no sábado á tarde hein!! Não quero perder o contato com você.

E deram aquele abraço de macho, contido, mas de coração. Em seguida, Afonso disse:

- Bem, sem emprego por muito tempo você não fica. O meu amigo vai te indicar lá onde ele trabalha. Ganha até mais do que aqui e o chefe de lá é muito gente boa. Já te dei o telefone né?

- Deu, tá aqui no bolso...- e começou a fuçar no bolso só para conferir.

Foi então que, de repente, Marcelo mudou de expressão. Ficara estático.

- O que foi, cara? – perguntou Afonso.

E de repente, Marcelo puxa junto com a anotação do telefone, um papel amassado, com o logotipo da empresa.

- Eu não acredito! – surpreendeu-se Afonso. – Isso...

E Marcelo abriu o dito cujo.

- Sim, é ele. Puta que pariu... agora que eu me lembrei. Teve uma hora que seu Gomes falou da reunião, e no nervosismo, quase que inconscientemente,e enfiei com tudo dentro do meu bolso, mas lá no fundão mesmo. Nesse nervosismo todo eu nem... Ah, mas deixa quieto. Agora já é tarde. Vou guardar esta obra prima como lembrança. Pelo menos agora eu to livre daquele imbecil. Bem, vou nessa então. Mais uma vez obrigado por tudo, amigo.

- Que é isso. Desculpa não poder descer com você, mas é que o seu Gomes me entupiu de tarefas hoje, alegando que eu precisava ter mais o que fazer... – disse rindo.

- Beleza então. Até sábado.

- Até sábado.

E Marcelo fechou a porta. Afonso, agora sozinho na sala, sentou em sua mesa, ligou o seu computador, e começou a mexer com as suas planilhas. Olhou para a mesa vazia ao lado.

Sim, Marcelo faria muita falta, muita mesmo...

- É, bem que o meu avô dizia, o papel é mais paciente que o homem...

E pelo resto do dia Afonso assim ficou: cheio de trabalho, mas rindo sozinho.

Obrigado, de coração, a todos que tiveram a paciencia de ler e acompanhar todos os capitúlos dessa história...

FOTO: http://www.yogainlasvegas.com/images/stress_one.gif

terça-feira, 3 de junho de 2008

O Papel é Mais Paciente que o Homem - Parte III


Para ententer melhor a história, confira as Partes I e II.


- O quê? Tangerina podre? Eu não acredito!!!! KKKKKKKK!!!

- Nossa!! Você é louco Marcelo!!! Mas pra falar a verdade, você poderia publicar isso na reunião!!! Ia ajudar e muuito no desempenho da equipe...AH AH AH AH AH AH AH!!

- Ai tadinho!! Tangerina podre não... Coitada das tangerinas, ao contrário do seu Gomes, elas fazem tão bem...HAUHUAHAUHAUHUA!!!!!

- Nada como ter o papel pra gente desabafar não é Marcelo? Adorei a idéia, também vou fazer isso quando ele fizer piadas do meu casamento. Aquele gordo ridículo merece muito mais do que isso.

Marcelo nunca havia se divertido tanto com seus colegas como dessa vez. Chegava a ser assustador o quanto as pessoas do departamento detestavam seu Gomes. Gente vítima de gritos, palavras injustas, piadas sem graça, humilhações e simplesmente, quando queriam apenas demonstrar o melhor de si, assim como Marcelo, foram pisados pela arrogância do velho.
Porém, para a tristeza de Marcelo, ninguém vira o tal papel.

- E agora Afonso? O tempo tá passando! Eu preciso achar isso antes da reunião.

- Sabe cara, me lembrei de uma coisa agora. A faxineira não passa por aqui por volta das duas da tarde? E se ela não passou e levou esse papel com ela? Era mais ou menos por esse horário que a gente saiu pra tomar água.

- Vamos falar com ela então.
***
- Como assim a senhora já sabe dona Maria?

- Ué, do tal papel que você escreveu pro seu Gomes? Nossa, isso virou o assunto do dia. Você escreve bem rapaz. Já pensou em trabalhar fazendo humor?

- Quem sabe, dona Maria, quem sabe, mas a senhora chegou a encontrar algum papel caído lá no corredor.

- Bem...

Expressão de suspense. Marcelo e Afonso olharam para a faxineira com apreensão. Dona Maria tinha uma noticia.

- Hoje eu passei mais ou menos nesse horário de sempre no corredor de vocês. Mas daí eu passei perto de uma daquelas portas e realmente achei um papel no chão. Só que na hora, sei lá, na dúvida, resolvi entregá-lo ao seu Gomes mesmo. Eu até achei estranho pela cara furiosa que ele fez quando leu aquilo. Mas você sabe, como eu não sou uma pessoa curiosa eu não me atrevi a perguntar o que era aquilo, senão era capaz de eu perder o meu emprego...

- M-Meu Deus. Afonso!!! Eu to na roça!!!! Ele...

- Calma!! Calma!! A gente ainda não tem certeza se foi esse papel que ele leu mesmo.

- Eu to vendo a cena, cara! Ele tá quieto, não falou nada até agora. Ele vai deixar pra expor isso na reunião... Meu Deus, eu vou ver mandado embora por justa causa...

- Calma seu Marcelo. Você não conhece seu Gomes? Ele é explosivo. Se fosse isso mesmo ele já teria vindo falar com o senhor. – disse dona Maria.

- Tá vendo? Vamos fazer o seguinte. Vamos terminar o nosso trabalho, e esperar a reunião...

- Já sei, Afonso!! Vamos lá na sala dele e recuperar esse papel.

- O quê? Você ficou louco? Ir na sala dele como? O cara agora tá lá. E pior, se for mesmo o seu papel, imagina se ele te vê ali, naquela sala, a sós...

- Vixe... não quero nem pensar. É... você tem razão. Mas e então, o que a gente faz?

- Vamos esperar a reunião. Como ele já vai discutir a postura na nossa equipe, então ele vai tocar nesse assunto. Se não tocar, é porque o papel não está com ele, beleza?

- Não sei não... Acho que a gente deveria procurar mais...

- A gente já procurou o bastante. E é como a dona Maria falou, ele é explosivo, se fosse isso, já teria falado com você antes.

- Droga! Porque que eu não dei logo um fim nesse papel...

- Eu avisei...

Marcelo o olhou com a cara feia.

- Não precisa jogar na cara. Eu sei disso, mas você queria que eu fizesse o que? Bem na hora que a gente tá falando do velho ele aparece...

- Tudo bem, desculpa. – respondeu Afonso, cortando ele. - Mas vamos lá, faltam poucos minutos pra começar a reunião. Ele vai dar pela nossa falta. Relaxa, é muita coincidência esse papel ter ido parar logo nas mãos dele.

- É... muita coincidência...


aguarde... amanhã, último capítulo


FOTO: http://www.faunus.com.br/Figuras/search3.jpg

segunda-feira, 2 de junho de 2008

O Papel é Mais Paciente que o Homem - Parte II

Para entender melhor a história, confira a postagem anterior, parte I.

- Seu Gomes? – disse Afonso, espantado.

- Como vai seu Gomes? – disfarçou Marcelo, enquanto pegava a carta e a jogava no colo.

- Porque o susto? – perguntou o velho, com sua voz rouca e rasgada. – Aconteceu alguma coisa?

- Não senhor. Estávamos apenas conversando sobre alguns assuntos da empresa. – respondeu Marcelo.

- Hum... sei. Com tanta coisa pra se resolver os dois pombinhos ficam de conversa pelos cantos? Eu não sou contra homossexualismo, mas aqui na empresa não se tolera relações mais intimas entre funcionários...

Silêncio. E de repente, o velhote soltou uma gargalhada. Não parecia, mas para ele, havia feito uma piada. Uma piada que Afonso e Marcelo não acharam a menor graça.

- O senhor queria nos falar alguma coisa? – perguntou Marcelo, mudando logo o rumo da conversa.

- Óbvio. – disse ele enquanto ajeitava a calça. – Achou que eu viria me ajuntar a conversa de vocês? Eu tenho mais o que fazer. Quero os dois mais tarde na minha sala para uma reunião com os funcionários do nosso setor. Será daqui á duas horas. Não ando gostando de certas posturas na nossa equipe, e já vou avisando: cabeças irão rolar.

Os dois rapazes sentiram um frio a percorrer a pele.

- Tudo bem. Estaremos lá. – respondeu Afonso.

O homem apenas emitiu um som incompreensível, e em seguida saiu da sala, ajeitando a gravata.

- Cara, eu ainda mato esse velho... – disse Afonso, agora engasgado. – Isso é piada que se faça?

- Pra você ver. To até suando. Vamos tomar uma água?

- Demorou. Nem quero imaginar como vai ser essa reunião... Cabeças vão rolar... cabeças vão rolar...

E saíram rapidamente da sala, rumo ao bebedouro mais próximo, que ficava no corredor a duas portas depois da deles. A frase de seu Gomes fora forte, e ficara por vários minutos se repetindo dentro de suas mentes, como um LP riscado.

- “Cabeças irão rolar”... “cabeças irão rolar”... “cabeças irão rolar...”


***

E após um bom copo d’água, dos dois voltaram a sala, se jogando em suas cadeiras.

- A Mari falou que ele tá planejando essa reunião há dias. Tudo porque o gerente geral reclamou dos nossos resultados.

- Engraçado né Afonso. Todo aquele meu projeto fala justamente sobre isso, sobre como melhorar os resultados da nossa equipe. Apresentar isso cairia como uma luva nessa reunião. Mas duvido que ele me deixe falar. É só ele quem fala nas reuniões.

- Pois é... Nossa, até agora to engasgado com aquela piada que ele fez. Eu devia fazer como você também. Vou escrever uma daquelas cartas pra aquele tangerina podre...

Foi então que Marcelo teve um estalo. No momento de tensão pela presença de seu Gomes e pela reunião, esquecera-se do bilhete, que até então onde lembrava, havia deixado em seu colo. Olhou para a papelada na mesa. Em seguida, olhou para o chão. O papel não estava lá. Colocou a mão nos bolsos de sua calça. Também não estava lá.

- O que foi? – perguntou Afonso, enquanto mexia o mouse do seu micro para sair da proteção de tela.

- Não acho aquele papel que eu escrevi. Tinha deixado ele no colo na hora que o seu Gomes entrou.

- Iiihhh... deixa eu ver.

E fuçaram por toda a sala, nas mesas de funcionários de outros turnos, no carpete, nas gavetas, e até nas lixeiras.

- Eu não acredito que você perdeu isso, Marcelo. Vamos lá no corredor, vai que você deixou cair por lá.

E foram no corredor até no bebedouro onde haviam parado. Algumas pessoas que passavam por ali estranhavam a atitudes daqueles dois rapazes andando de quatro naquele carpete cinza.

- O que estão procurando. – perguntou Miriam, colega de trabalho.

- Eh...

Falariam do tal desabafo ao chefe?

- É um papel que a gente perdeu...

- Por acaso seria esse aqui? Achei na porta da sala de vocês.

E no desespero, Marcelo arrancou o papel da mão da mulher.

- Nossa calma! – indignou-se ela. – Eu já ia te entregar.

E Marcelo abriu o papel. Murchou. Não era ele.

- Desculpa, é que eu preciso muito desse papel que eu perdi. O meu emprego pode estar em jogo se ele parar em mãos erradas.

- Sei. E como ele é?

- Era na verdade um rascunho. Atrás tem o símbolo da companhia.

- Ah... quase todos os papeis daqui tem a marca da companhia. Desse jeito fica difícil né... Mas tudo bem. Se eu achar alguma coisa por ai, eu falo com vocês. Com licença, preciso me arrumar pra reunião com seu Gomes.

E a moça saiu, deixando os dois no chão.

- Cara, agora eu to com medo. - comentou Marcelo. - Onde foi para esse papel?

- Onde foi eu não sei cara, mas acho melhor a gente correr porque a reunião começa daqui a duas horas. Imagina se alguém encontra esse papel ou o próprio seu Gomes o encontra por ai?

- Vira essa boca pra lá. Eu já sei o que a gente vai fazer. Vamos perguntar em todos os departamentos.

- Mas peraí, você não vai falar o que tinha naquele bilhete não é?

- Vou sim. Não tem outro jeito. Até porque, esse bilhete ia fazer um puta sucesso entre o pessoal. Ia ser muito divertido.

- Pior que ia mesmo...hehehehe... Bom, se esse é o preço que a gente tem que pagar pra achar esse bilhete, tudo bem, a gente paga. Vamos lá.

Marcelo abriu um sorriso. Mesmo com toda aquela situação, ele iria adorar mostrar esse bilhete para todos os membros da equipe. Vai ser um sucesso...


continua...


FOTO: http://timshel-driesvanba.blogspot.com/2007/12/psicose-65.html

domingo, 1 de junho de 2008

O Papel é Mais Paciente que o Homem - Parte I


Nesta semana o "Em Linhas..." completará 1 ano de vida. E para comemorar esta data tão especial, publicarei um conto com quatro partes que serão postadas de hoje até o dia 4, que mostra o que um simples desabafo no papel pode provocar na vida de uma pessoa, especialmente quando esse belo desabafo envolve o seu “querido” patrão...

Divirta-se, e acompanhe essa seqüência que promete...


Abriu a porta com fúria, fechando-a em seguida. Sentou em sua mesa, espumando de raiva.

Afonso viu o amigo Marcelo visivelmente nervoso. Não precisou pensar muito. Foi mais um daqueles dias em que levara esporro do seu patrão, Seu Gomes.

Seu Gomes era um senhor de idade. Beirava os sessenta anos, mas a sua expressão enrugada e com pesadas olheiras lhe adicionavam mais dez anos de idade. Era gordo, usava habitualmente terno e gravata, mas com a sua pressa e a sua ansiedade sempre à flor da pele, suas calças nunca paravam no lugar, e a sua gravata vivia torta e mal colocada. Por isso, já era hábito vê-lo ajeitando as calças e/ou a gravata de dois em dois minutos. Já era administrador daquele setor há cerca de cinco anos, mas seu tempo de empresa já ultrapassava os vinte. Sentia-se o máximo em seu cargo, ainda mais quando o gerente geral exaltava as suas qualidades ou as qualidades do departamento.

- Aquele imbecil não vale nada. Você acredita que ele simplesmente se recusou a ouvir o projeto que eu fiz, dizendo que quem era pago para pensar era ele e eu era só pago para obedecer?

- Imagino. O seu Gomes é casca dura, acha que só ele é que deve pensar. Mas relaxa, cara, não fica assim não...

Era o que ele sempre dizia ao amigo nessas horas. Por mais que detestasse aquele emprego e principalmente o patrão, Marcelo tinha muita vontade de trabalhar, e era uma mente criativa dentre todos que trabalhavam naquele setor.

- Aquilo ali é inveja. – dizia ele. – Ele tem medo de eu roubar o cargo dele. Essa é que é a verdade. Ele sabe que eu tenho mais competência que ele. Se você soubesse como eu fiquei na hora que ele falou aquilo... Deu vontade de falar tudo aquilo que tá engasgado na minha garganta, puta que pariu...

- Não fica assim não rapaz, faz que nem eu, em vez de ficar por ai batendo porta, xingando o chefe e com coisa engasgada só zoando com a sua saúde, porque você não pega um papel e começa a descarregar tudo que você queria falar pra ele?

- Descarregar? No papel? Em linhas?

- Sim. É melhor do que ficar espumando aí como você tá... Às vezes eu faço isso também. Foi um psicólogo que me recomendou quando eu tive aquela crise de stress. Não conhece aquele ditado que diz que o papel é mais paciente que o homem?

- Sei...

- Então. Faça isso, cara. Você vai ver como vai se sentir melhor...

Marcelo franziu a testa. Nunca tinha pensado nisso. Soava até meio que infantil para ele. Ele já tinha feito isso algumas vezes quando era adolescente, naquela fase em que os nossos conflitos viram linhas, em versos, diários ou em frases pequenas de caderno de escola. Mas já fazia muito tempo que ele não desabafava dessa forma.

- Não é uma má idéia...

***
- Pronto. Terminei.

- Posso ler?

- Pode mas lê só com os olhos.

- Beleza.

E então, Afonso começou a ler o papel.

“Querido senhor Gomes,

Venho através desta lhe confessar o quanto admiro o seu trabalho e especialmente, o quanto a empresa conseguiu ser tão burra o suficiente para pagar um salário generoso a um velho que mal sabe arrumar as próprias calças. Obvio, quem sou eu pra discordar da gestão da nossa querida empresa, mesmo que ela tenha tomado a atitude de contratar cavalos no lugar de seres humanos para setores onde seus funcionários parecem ter mais inteligência do que o seu próprio administrador. Mas tudo bem senhor Gomes, o aquecimento global está acabando com o nosso planeta, e entendo que animais selvagens como o senhor precisem de uma ajuda para sobreviver, por isso, fique tranqüilo, eu não quero roubar o seu cargo ou a sua mulher, se bem que pelo seu jeito, duvido que você ainda lembre o que é ter uma mulher, com essa cara de tangerina podre que você tem.

Pois bem senhor Gomes, diante disso tudo, apenas peço que preste mais atenção nos projetos que eu for lhe apresentar, porque não os faço para agradar o senhor, e sim porque além de querer o bem estar do nosso setor, eu não perco o meu tempo mostrando quem é que manda por aqui.”

Um abraço carinhoso de seu funcionário pago para obedecer,

Marcelo


- Nossa cara, tangerina podre foi o pior!!!! – exclamou Afonso rindo.

- Psst! Fala baixo, quer que ele escute?

- Foi mal... mas meu, você escreveu isso como se realmente fosse algo direto pra ele. Ficou ótimo. Até eu me senti vingado! Mas e aí, você se sente melhor?

- Se eu me sinto? Nossa, acho que vou fazer isso todos os dias. Vou pegar... fazer essa carta... dobrá-la e guardá-la todos os dias só pra me divertir um pouco quando quiser rir da cara dele.

- Espera aí, você vai jogar fora né? Ou pelo menos não vai deixar isso guardado por aqui?

- Porque você tá falando isso? Você acha que alguém vai ler isso aqui ou que vai chegar aos ouvidos do chefe?

- Não sei mas se eu fosse você não arriscava.

- Relaxa. Todo mundo aqui odeia ele, fora que essa carta vai ficar bem guardada. Mas jogar fora eu não jogo nem em sonho. Foi a minha maior obra prima dentro dessa empresa.

- Tá bom, você é quem sabe, mas cuidado. Você mesmo me falou outro dia que tá endividado até o pescoço e não pode nem sonhar em perder esse emprego.

- Nem me fale. Mas pode ficar tranqüilo, ela está em boas mãos.

E de repente, para a surpresa dos dois. Seu Gomes entrou na sala, sem bater como de costume. Seus olhos carrancudos pareciam a todo momento uma arma mirada para quem ele olhava, pronta para disparar o primeiro tiro.

continua...


FOTO: http://franklincarlos.files.wordpress.com/2008/03/raiva.jpg